Liberdade para cuidar

Recentemente, visitei o Sanatório John Harvey Kellogg’s, em Battle Creek, Michigan, Estados Unidos. Fundado em 1866, foi reconstruído e expandido ao longo dos anos. No seu apogeu, abrigava cerca de 1.200 pacientes, muitos dos quais figuras famosas da época: empresários, políticos, cientistas, artistas, escritores e intelectuais.

Vinham para experimentar as novas práticas revolucionárias de saúde, recomendadas por Ellen White. Ela defendia ar fresco, água pura, dieta baseada em vegetais e exercício – conceitos tão revolucionários na época, como são convencionais hoje.

Enquanto caminhava por aquele grande complexo de prédios antigos, fiquei perplexo com a audácia de nossos pioneiros, a enormidade de seu empenho. Como era ampla a visão deles! Quão profundas suas convicções, levando-os a um empreendimento tão ambicioso! Naquele prédio histórico, podemos encontrar as raízes da atual rede internacional de hospitais adventistas do sétimo dia, escolas de medicina e clínicas. Foi ali, também, o início de nossas indústrias de alimentos saudáveis e onde o trabalho médico missionário da igreja começou a ser estruturado.

Foi um poderoso lembrete para mim de que, no âmago do adventismo, há uma profunda preocupação com a pessoa como um todo. Nossa fé é fundamentada na mensagem de totalidade de Cristo – uma transformação espiritual que engloba os aspectos físico e emocional da pessoa. Nenhum aspecto da vida humana está além do toque de Cristo; nenhuma faceta da atividade humana sai do âmbito de Seu cuidado.

Como adventistas do sétimo dia, essa é a nossa herança. Foi isso que moldou nossas atitudes e nossas instituições. Isso ajuda a explicar por que priorizamos a assistência humanitária; porque defendemos a liberdade religiosa para todos os povos, independente de sua crença; porque continuamos a investir pesadamente em educação. Essa mensagem de “totalidade” tem nos mantido na vanguarda nas questões de saúde pública, nas campanhas contra o álcool, o fumo e outras práticas que destroem os indivíduos, as famílias e a comunidade.

Enquanto reflito sobre nosso passado, tenho também a consciência de que nosso desafio não é estático. Temos uma responsabilidade contínua de nos engajarmos com as questões emergentes da sociedade; de destacar nossos valores e voz profética daquelas coisas que afetam as comunidades onde vivemos hoje.

Em nossos dias, uma questão em particular, que gera imensa cobertura da mídia e discussão política em quase todas as partes do mundo, é o meio ambiente. Contudo, é um assunto que nós, como igreja, ainda não assumimos de modo significativo. Falando com membros da igreja sobre meio ambiente e mordomia, encontrei atitudes diferentes: cautela em relação a algumas retóricas filosóficas e políticas que tantas vezes acompanham a linguagem do ambientalismo; indiferença em relação a uma questão vista por alguns como secundária à nossa missão principal; e para outros, frustração por permanecermos silentes, quando nossa voz deveria ser ouvida.

O meio ambiente é um “problema adventista”? Temos algo significativo, algo singular, para contribuir para a sua preservação? Creio que a resposta seja “sim”.

Minha esperança é de que avancemos na direção de uma discussão sobre o adventismo e a responsabilidade ambiental, para desenvolvermos uma abordagem leal aos nossos valores e compatível com nossa vocação histórica. Então, ao iniciarmos esta conversa, gostaria de compartilhar com você três breves reflexões sobre administração ambiental. 

1. Removendo os envolvimentos políticos
“Ambientalismo” é o mesmo que cuidar do meio ambiente? Como tantos “ismos”, o ambientalismo é, por vezes, direcionado pela sociedade para questões política e economicamente orientadas, tendo consigo uma agenda específica.

Às vezes, o ambientalismo pode assumir um sabor, ou um conjunto de dinâmicas que, na realidade, não é para o cuidado do meio ambiente. É fácil as pessoas pensarem: “Estou sendo empurrado numa batalha política entre governos, poderes econômicos, industriais, cientistas, figuras públicas e grupos de ‘lobby’. Com freqüência, o tom é acusativo e confrontador. Assim, retrocedemos e dizemos: ‘Não quero me envolver com isso’.”

Quando, porém, tiramos as camadas que envolvem o “ambientalismo”, encontramos idéias que também ecoam nossas próprias crenças e valores: cuidado pelo mundo de Deus e cuidado pelo nosso semelhante, o ser humano.

Vamos dizer ao mundo sobre o descanso sabático, um dia específico da semana em que nos lembramos, especialmente, do poder criativo de Deus. Vamos falar sobre nossa defesa do vegetarianismo, a dieta que, quilo por quilo, requer menos recursos para ser produzida do que a dieta não vegetariana (e, ao mesmo tempo, falemos sobre convicções espirituais que norteiam nossas escolhas e estilo de vida!). Falemos sobre nosso interesse pela pessoa como um todo – em lugar de apenas o “espírito” ou “alma” doutrina que dá aos adventistas uma perspectiva única entre a maioria dos cristãos, hoje. Falemos também sobre a relação feita por nossa profetisa, Ellen White, entre um ambiente limpo e boa saúde. Falemos sobre a ênfase que os adventistas colocaram historicamente na água pura e no ar fresco.

2. Responsabilidade espiritual ou uma opção extra?
Quando Deus completou Seu trabalho criativo, deu ao homem poder – domínio – sobre a Terra. Mas o que significa ser “senhor” de nosso meio ambiente? Senhor apenas para sua utilização? Trata-se de uma afirmação de poder sobre a natureza, o direito de uso e abuso, extrair e destruir, independente das conseqüências? Não. O domínio que Deus estendeu à humanidade foi um ato de confiança, uma responsabilidade especial para administrar, com sabedoria, os recursos que Ele providenciou.

Quando Deus criou o mundo físico – com sua incrível variedade de vida e habitantes – não agiu de forma aleatória e casual. Ele criou algo completo, e creio que, se fracassamos na condução de nossa vida de maneira a preservarmos o equilíbrio entre todas essas coisas, falhamos na mordomia, violamos a confiança de Deus na humanidade.

Há os que dizem: “Mas este mundo não vai muito longe. Deveríamos nos concentrar no mundo porvir!” Mas eles mesmos não conseguem deixar este mundo. Este é o lugar onde estamos hoje; este é o lugar onde somos chamados a demonstrar nossa obediência a Deus. Este é o mundo que Deus confiou ao nosso cuidado. E é hoje, neste mundo, que começamos a moldar nossa vida e coração para a eternidade.

Outros podem dizer: “Mas isso não é uma distração da nossa tarefa mais importante que é compartilhar Cristo com os outros?”

Eu responderia: “Mal começamos a nos envolver com esse assunto; temos um longo caminho a percorrer antes que se torne uma distração!” Não nos esqueçamos ainda de que nossa missão, como igreja, nunca foi tacanha. Com isso, quero dizer que nossos esforços na missão sempre abrangeram um vasto leque de atividades como pregação, ensino, evangelismo, cura, assistência humanitária, serviços comunitários, liberdade religiosa e educação. Essa abordagem global – imitando o ministério de Cristo em nossas comunidades – só será reforçada ao destacarmos também nosso cuidado pelo aspecto físico do mundo. 

3. Verdadeira liberdade
“Uma residência dispendiosa, mobília trabalhada, ostentação, luxo e conforto não proporcionam as condições essenciais a uma vida útil e feliz”, escreveu Ellen White. “Jesus veio ao mundo a fim de realizar a maior obra jamais efetuada entre os homens... Quais foram as condições escolhidas pelo Pai infinito para Seu Filho? Uma habitação isolada nas colinas da Galiléia; um lar mantido pelo trabalho honesto e respeitável; vida de simplicidade; luta diária com as dificuldades e provações; abnegação,economia e paciente... serviço.” 2

Há outro aspecto da administração ambiental que exprime fortemente os valores adventistas. Quando escolhemos um estilo de vida simples e subjugamos nossos desejos, quando enfatizamos o espiritual acima do material e escolhemos relacionamentos acima de “coisas”, estamos seguindo o exemplo de nosso Senhor.

Vejo certo círculo nisso. Os adventistas do sétimo dia sempre pregaram uma mensagem de liberdade espiritual – liberdade do poder do pecado, liberdade do medo, liberdade de consciência e de expressão religiosa. Mesmo nossa obra de cura, educação e assistência humanitária é guiada pelo mesmo desejo de libertar as pessoas da pobreza, ignorância, dor e injustiça. Esse mesmo interesse pela liberdade desperta nosso interesse pelo mundo em que vivemos. Tendo consciência sobre o que bebo, como, visto, uso, como viajo e gasto meu tempo – tudo isso afeta o meio ambiente e, conseqüentemente, cada um dos filhos de Deus e os seres criados por Ele.

Isso não significa vivermos uma existência incolor e sombria. Pelo contrário, significa nos libertarmos do consumismo implacável, dando mais atenção às pessoas e menos às aquisições, construindo uma vida centrada nas prioridades de Cristo e não nas do mundo – essas são escolhas que conduzem a uma maravilhosa sensação de liberdade, um indescritível senso de liberação! E essas são escolhas que produzem qualidade de vida.

Este é um tema com uma riqueza de idéias ainda a ser explorado; é uma discussão que, espero, venha a ter raízes em nossas escolas, instituições e nossos lares. Ao observarmos mais de perto a administração ambiental e considerar nossa resposta, creio que encontraremos a base de princípios sobre a qual possamos desenvolver uma abordagem clara, bíblica e distintamente adventista. Oro para que, ao fazermos isso, não sejamos menos ousados, menos visionários do que nossos pioneiros. E, acima de tudo, oro para que nossa resposta, em palavras e atos, sirva para revelar mais claramente ao mundo a imagem do Criador.  

1 Os prédios Kellogg pertencem aos EUA e são administrados pelo governo.
2 A Ciência do Bom Viver, p. 365.  
 

O pastor Jan Paulsen escreve mensalmente para a Adventist World, periódico mensal publicado pela Review and Herald Publishing Association.


Fonte: Adventist World (julho de 2008)
http://portuguese.adventistworld.org/

Pastor Erton Carlos Kohler, presidente
Pastor
Jan Paulsen, presidente mundial
da Igreja Adventista do Sétimo Dia


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